Hitler no Brasil: A construção de um Mito

*Por Paula Ferreira, acadêmica de História e Pedagogia, para o História Lecionada

Muito se tem falado nos últimos dias sobre Adolf Hitler ter vivido e morrido no Brasil. A provocação do debate partiu da Jornalista e Pesquisadora Simoni Reneé Dias, autora do livro Hitler no Brasil. Simoni acredita que Hitler se escondeu na Argentina e depois no Paraguai, para depois ir para o estado brasileiro Mato Grosso, na localidade de Nossa Senhora do Livramento, onde buscava tesouros jesuítas perdidos.

A jornalista, baseada em dados superficiais e pouco consistentes, levantou sua teoria – que ganhou fama mundial – partindo do pressuposto de que um senhor tratorista, denominado Adolfo Lepping, seria o Fuhrer alemão. Os indícios da pesquisadora nesse quesito partem de duas premissas: A primeira, de ser o nome idêntico ao do líder nazista. A segunda, por ser Lepping uma ‘referência’ a uma cidade alemã, Leipzig.

 

Os apontamentos estapafúrdios prosseguem: Diz Simone Reneé que, através de entrevistas de História Oral, apontou ser forte indicação o caráter reservado e quieto do tratorista. Além do mais, ressalta um suposto temor de uma freira em atender o mato grossense, classificando-o de ser um ‘sanguinário’, sem ter nenhuma base fundamentada para isso, afora que suas pesquisas foram profundamente rechaçadas por um padre alemão que convivia com Adolfo Lepping, segundo ela o único que possuía maior intimidade com o mesmo, que inclusive a acusa de ter cometido crime ao afirmar ser parente de Adolfo a administração do cemitério em que estava enterrado o tratorista, para conseguir, pasmem, os restos mortais do mesmo que estão em sua residência. A tese absurda da pesquisadora chega a ponto de comparar o bigode entre o Fuhrer e o tratorista como um ‘grande indício’.

 

A pesquisa de Simone desconsidera alguns fatos óbvios para qualquer pesquisador primário. Uma delas, a de que Adolfo era casado com uma negra, divergindo de todos os pressupostos raciais de que o autor de Mein Kampf defendia. Outro fato que é desconsiderado são as pesquisas que apontam, com maior propriedade, o suicídio do ditador logo que ficou evidente o avanço soviético em Berlim.  Não obstante, documentos de um prontuário de atendimento de uma unidade hospitalar em que Adolfo – que praticamente não possui documentos para pesquisas – frequentou explanam que, naquele ano, Hitler teria 95 anos de idade e o tratorista, 82.

Obviamente, o trabalho, que ganhou repercussão nos meios acadêmicos e de imprensa em escala mundial, vem sofrendo ataques violentos. A incongruência da pesquisa, cheia de lacunas e com sérios problemas de fundamentação científica vem sendo alvo de chacota tanto no país como no exterior, levando inclusive a descrédito a academia brasileira, já que o livro é uma dissertação de mestrado. Contudo, querendo ou não, o fato positivo dela foi ter suscitado o debate acerca da morte de Adolf Hitler, trazendo também a tona a avaliação de historiadores e da Academia em cima do trabalho, nem sempre ouvidos por meios de comunicação.

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